Mãe do Che
Lembro do exato momento que ele chegou até mim e me pediu ajuda, entre aquele sorriso que me incendiou desde a primeira vez que o vi em minha frente. Agora ele veio, chamou meu nome e disse que eu poderia ser a pessoa mais legal da face da Terra... se ajudasse sua namorada  a conseguir um patrocínio para o projeto social que ela defende.
Bom, esse é o meu trabalho há pelo menos nove anos e recebo inúmeros pedidos iguais todos os dias e, ter que admitir que o projeto dela é um dos mais bem elaborados já foi bastante difícil e, ela conseguir esse patrocínio com a minha chefia a tornaria uma daquelas pessoas que realmente conseguiram vencer na vida.
Eu era a mediadora disso tudo, era um ‘visto’ meu e eu seria a pessoa mais legal do mundo para ele, estando há anos luz de pessoa mais fantástica da galáxia dele. Eu só queria ele, por uma noite que fosse e me sentiria a pessoa mais feliz do universo e tudo mais.
Olhei para ele, sorri simpática e disse: é, ela é boa.
Meu juízo de valor não se fazia interessante naquela hora, mas eu só precisava agir como a pessoa normal que talvez sempre fui. Eu precisava engolir todas as horas que imaginei ele sentado no sofá da minha casa, olhando pra mim e me fazendo ser única. Precisava não demonstrar a raiva de ter passado dias construindo ideias de transas que, muito provavelmente, jamais teria com ele.
Naqueles dez segundos de menina má, pensei em condicionar meu OK a ela pela minha satisfação sexual com ele, mas voltando para o mundinho real, eu sou uma boa garota que só quer água e a ração no seu potinho no final do dia.
Mordi os lábios, olhei fixamente nos olhos dele e disse: temos alguém com sorte aqui. Os olhos dele brilharam. Isso também significaria um começo para ele. Para eles. E graças a mim, a pessoa mais legal do mundo que na hora levantou, tirou os óculos e pediu que aguardasse cinco minutos.
Talvez para esconder os meus olhos marejados porque a chefia confiava tanto em mim que eu não precisava consultá-los nestes assuntos, só que eu precisava fugir naquele instante para puxar o fôlego seja de onde fosse. A sala da chefia estava vazia, como eu bem sabia já que eu mesma tinha comprado as passagens aéreas. Entrei, sentei, coloquei o rosto entre as mãos e tentei me imaginar dentro de um trem na Itália, lembrando sobre dignidade que estava me faltando naquele momento.
Tenho impressão que eu nunca havia me apaixonado antes e nunca tive um namorado, não queria isso, aliás. Por que eu não queria? Jamais saberemos. Mas o fato é que agora eu queria, quero, quero muito. Quero especificamente o carinha que está me esperando na sala ao lado, cheio de sonhos no peito e que, se tudo sair como ele planeja, nunca mais nos veremos depois do próximo mês.
Saí da minha jaula provisória, cabeça erguida, pensando em tudo que poderia ter sido e não foi, sorrindo, minha assinatura abrilhantando aquele papel.
- Dê os parabéns para sua namorada e diga que teremos uma reunião dentro de uma semana, que iremos ligar para agendar o horário, e que já pode abrir um espumante se for me convidar para o brinde.
Ele riu e disse:
- Queria que ela tivesse metade do teu sarcasmo. Abraçou-me e agradeceu pelo menos quatro vezes, incluindo um beijo na testa antes de virar as costas e desaparecer.
Agora penso que trabalho social exige muito mais que coração. Ou é simplesmente colocar o coração num potinho com formol.